SILÊNCIO NA CAMA
Clínica e Laboratório Pró-Sono
São Paulo
Dr. Ricardo Castro Barbosa
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Reposicionadores mandibulo-linguais e um modelo de retentor lingual:
aparelhos solucionam 90 % dos casos.
| Um dentista e um neurologista de São Paulo desenvolvem aparelhos que acabam de uma vez com o problema do ronco |
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in: Revista Globo Ciencias n.53 ano 5 dezembro 1995; p. 40-41
Ana Maria Fiori/Emi Shimma
Há dois anos, o marido da socióloga Ellis Chaverini, o engenheiro Nasser Chicani, não é mais o mesmo homem na cama. E ela está bastante feliz por isso: Ele não ronca mais. Após 31 anos de casamento finalmente posso dormir tranqüila, exulta. Ellis lembra que Nasser começava a roncar assim que pegava no sono. E cotoveladas de nada adiantavam. A dona-de-casa Sueli Torres, casada com o motorista Sadi Ferreira Machado há 14 anos, padecia do mesmo problema. Mas se as esposas não conseguiam dormir, os maridos não estavam em posição mais confortável. O distúrbio também perturba o sono de quem ronca e pode, inclusive, pôr em risco sua vida, levando-o à hipertensão e até ao infarto.
DA VINCI ERA VÍTIMA
Nasser e Sadi não eram os únicos a viverem este drama. Pelo menos um quarto da população mundial ronca todas as noites. A lista inclui nomes como o do italiano Leonardo da Vinci e o do inventor da lâmpada, o norte-americano Thomas Edison. Apesar de reconhecida genialidade desses criadores, eles ainda não dispunham de meios para combater o distúrbio. Hoje, porém, a ciência já oferece soluções, que vão da cirurgia aos novos aparelhos que permitem a passagem livre do ar pelo sistema respiratório.
Um desses aparelhos é o reposicionador mandíbulo-lingual e o outro é o retentor lingual, ambos desenvolvidos pelo neurologista Flávio Aloe, do Hospital das Clínicas de São Paulo, e pelo dentista Ricardo Castro Barbosa, da Faculdade de Odontologia da USP. Antes de tornar qualquer decisão, os especialistas precisam, primeiro, diagnosticar a causa do ronco, que é uma vibração que ocorre quando o ar, ao passar pelo nariz, em direção aos pulmões, empurra a úvula, aquela parte da garganta conhecida popularmente como sininho ou campainha, de encontro à parede posterior da faringe. Segundo o dentista Ricardo Castro Barbosa, vários fatores podem contribuir para o surgimento do ronco: desvio do septo nasal, tumores malignos ou benignos nas vias respiratórias, hipertrofia dos cornetos, estrutura esponjosa colada às narinas, rinite alérgica e desenvolvimento imperfeito do chamado sistema estomatognático, que envolve dentes, língua, lábios, bochechas, ossos e articulações da face.A idade e a obesidade, que causa a flacidez dos tecidos adjacentes à faringe, contribuem para piorar o quadro, aponta Barbosa. O ronco ocorre geralmente durante a madrugada, quando a pessoa atinge a fase de sono profundo.
O grau do ronco e sua gravidade podem ser avaliados por um exame específico denominado polissonografia. Os especialistas classificam o ronco em quatro íveis: leve, moderado, grave e dramático. Nos casos dramáticos o ruído pode chegar a 85 decibéis. O Guiness, Livro dos Recordes registra o caso de um indivíduo que roncava numa intensidade de 100 decibéis, equivalente ao som de uma britadeira, relata o neurologista Flávio Aloe.
PARADAS RESPIRATÓRIAS
Mas o barulho provocado pelo ronco não é o que mais preocupa os médicos. O ronco pode ser indício de um mal que pode matar: a apnéia do sono. A garganta se fecha totalmente. Além do sininho, a base da língua encosta na parte de trás da faringe, obstruindo a passagem de ar em períodos que variam de 10 segundos a 1 minuto, relata Aloe. Em casos mais graves, ocorrem até 500 paradas respiratórias durante a noite. Cerca de 90% das pessoas que roncam sofrem de apnéia. Estima-se que 2% da população adulta, com idade superior a 50 anos, são afetados pelo distúrbio. Quem tem apnéia ronca alto, tem sono agitado, levanta várias vezes durante a noite para urinar, descreve o neurologista. Além disso, apresenta sono excessivo durante o dia e dores de cabeça matinais.
Em estágios mais avançados surgem distúrbios sexuais, como impotência, e dificuldades de concentração e memorização, irritabilidade, ansiedade ou depressão. Não há registro de mortes por apnéia do sono, mas em decorrência dela. O esforço respiratório realizado durante a apnéia eleva a pressão sangüínea. O fato, a médio prazo, conduz à hipertensão, e esta pode culminar em infarto, relata Aloe.
Tanto o ronco como a apnéia podem ser agravados quando seu portador é fumante, consumidor regular de álcool, usuário de tranqüilizantes e leva vida sedentária. O tratamento desses distúrbios é prescrito conforme a gravidade do quadro e as características do paciente. Em pacientes com distúrbios leves, moderados e graves, podem ser usados o reposicionador mandíbulo-lingual ou o retentor lingual, diz Ricardo Barbosa. Cerca de 70% a 80% dos portadores de apnéia do sono e 100% dos que roncam podem beneficiar-se do recurso. Removíveis, usados somente na hora de dormir, confeccionados com resina fotopolimerizável, os aparelhos são apoiados nos dentes do próprio paciente. O recurso promove um posicionamento da mandíbula de tal modo que garanta boa ventilação durante o sono, explica Ricardo Barbosa. Os aparelhos funcionam tão bem como a cirurgia, desde que seu usuário não seja obeso nem portador de bronquite ou enfisema pulmonar.
ÓCULOS PARA DORMIR
De dezembro de 1992 a julho deste ano, aproximadamente 300 pacientes se beneficiaram com o uso desses aparelhos. Entre eles, Nasser Chicani, vítima de apnéia do sono, e Sadi Machado, portador de má-formação mandibular. Os aparelhos, que custam entre 750 e 1000 reais, reduzem o ronco em 90% dos casos e em 95% o número de paradas respiratórias por hora. Desde que passei a usá-lo, durmo bem. No início ele incomoda um pouco, mas vale a pena, comprova Sadi Machado. O recurso não cura o ronco ou apnéia, mas produz resultados satisfatórios. É o mesmo que usar óculos para driblar a miopia, compara. Os especialistas indicam a cirurgia somente em último caso.
A operação é agressiva e envolve a retirada das amígdalas, das adenóides e da úvula, observa Ricardo Barbosa. E é eficaz em apenas 50% das vezes. Não há medidas preventivas anti-ronco. Mas, em casos mais leves, o simples cuidado de manter o peso em dia, evitar bebidas alcoólicas antes de ir para a cama e dormir de lado podem minimizar o ruído. E trazer de volta, para roncadores e seus companheiros, o sono dos justos.
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O dentista Ricardo Barbosa (a esquerda) e o neurologista Flávio Aloe:
cirurgia e o último recurso.


