in: Revista da Folha ano 9 n. 387 outubro
1999; p.38-39
por Rui Santos
Lei do silêncio
Uma nova
técnica cirúrgica, que diminui o tamanho de músculos da boca e
garganta, promete acabar com o ronco.
Chega ao Brasil mais uma alternativa de cirurgia que pode melhorar a qualidade do sono de cerca de 30 milhões de pessoas no país (40% da população adulta) que roncam.
É a somnoplastia, uso de ondas de radiofreqüência que, aliada ao laser, diminui o volume de músculos da boca e da garganta que atrapalham a passagem do ar e provocam o ronco.
O QUE FAZ A SOMNOPLASTIA
Uma agulha (eletrodo) ligada a um gerador (somnos) emite microondas
que induzem um aquecimento proximo a 85 °C nos tecidos internos.
Isso mata as células e reduz o tamanho dos órgão que dificultam a
respiração e causam o ronco.
Depois da cirurgia, o ar circula mais facilmente entre os órgãos operados
e o ronco tende a diminuir. A dor pós-operatória é menor que a da cirurgia
a laser, porque as microondas evaporam a água dentro dos músculos, não
lesando a pele.
Além do incômodo social, o ronco é o principal sintoma de apnéia, parada repentina da respiração durante o sono, que atinge 9 milhões de pessoas um em cada três roncadores no Brasil. Na maioria das vezes, a pessoa acorda e volta a respirar normalmente, mas, nos casos gravíssimos, a falta de ar pode levar à morte.
Segundo o psiquiatra Dirceu de Campos Valladares Neto, da Clínica do Sono de Belo Horizonte, há pessoas que sofrem de apnéia que chegam a acordar 400 vezes durante a noite. Sentem-se indispostas, cansadas e mal-humoradas e correm mais riscos de provocar acidentes domésticos, no trabalho e no trânsito.
A somnoplastia é usada em cirurgias no pálato (céu da boca), na úvula (a campainha da garganta) e no nariz já existe perspectiva para estendê-la à base da língua.
Segundo José Antônio Pinto, otorrinolaringologista do Hospital São Camilo, o uso de radiofrequência, feita sem sangramentos e sem dor, aliada ao laser, pode diminuir o ronco em até 80%.
A otorrinolaringologista Adriane Zonato, do Instituto do Sono da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que a somnoplastia é feita com anestesia local e não exigem internação.
É um processo semelhante ao aquecimento de alimentos pelo microondas, só que aplicada a um espaço menor, compara Zonato.
O administrador de empresas Gérson Vianna Ayub,
40, foi alertado pela mulher, que é fonoaudióloga. Ela notou
que o meu ronco estava aumentando e se assustou quando, em
determinados momentos, eu parava de respirar.
Ayub fez exames e constatou princípio de apnéia. Ele fez
somnoplastia e se diz curado. Tornei-me outra pessoa. Antes
acordava cansado, muitas vezes pior do que quando me deitava,
cheguei a dormir no volante e não conseguia assistir televisão
ou ler sem cochilar, conta ele.
O advogado Raul Felipe Abreu Sampaio, 44, só procurou um médico quando o ronco começou a sufocá-lo durante a noite. Sampaio fez o tratamento e afirma que o ronco diminuiu em 80%.
Apesar dos primeiros resultados, os médicos avisam que a somnoplastia não resolve tudo. Há casos, por exemplo, em que o ronco é causado por obesidade, desvios ósseos ou má-formação de tecidos. Para esses problemas, devem ser usados outros tratamentos, como regimes para perder peso ou cirurgias com bisturi.
Gilberto Formigoni Filho, otorrinolaringologista do Hospital das Clínicas, recomenda cautela. A somnoplastia é um método não consagrado, com apenas um ou dois trabalhos publicados, diz ele.
Como é recente, a cirurgia não é coberta pelos SUS (Sistema único de Saúde) nem por planos de saúde.